sexta-feira, 11 de julho de 2025

Evangelho do Dia: A Força da Fé em Tempos de Adversidade


Mateus 10,16–23 | 11 de julho de 2025 – Memória de São Bento 

 No Evangelho de hoje, Jesus fala de modo claro e firme aos seus discípulos: “Eis que vos envio como ovelhas entre lobos” (Mt 10,16). Esta frase já anuncia que o caminho cristão nunca foi um caminho de facilidades. Jesus não engana os seus seguidores; pelo contrário, Ele prepara o coração dos discípulos para os desafios que virão. E, se Ele prepara os apóstolos para enfrentar adversidades, prepara também a mim e a você, hoje, para não desanimarmos quando surgem as dificuldades em nossa caminhada de fé.

1. O cristão no meio do mundo

Jesus compara seus discípulos a ovelhas no meio de lobos. Ora, uma ovelha é indefesa, dócil, frágil. Já os lobos são astutos, predadores, ameaçadores. A imagem é forte porque revela uma verdade espiritual: quem deseja viver segundo os valores do Evangelho inevitavelmente encontrará resistência. O mundo, com suas seduções, interesses egoístas e estruturas de pecado, não compreende quem vive a lógica da mansidão, da justiça, da paz e da verdade.

Mas veja bem: Jesus não nos manda fugir do mundo, nem se esconder. Pelo contrário, Ele nos envia! Ser cristão é estar no mundo, mas não ser do mundo. Somos chamados a ser luz que brilha nas trevas, mesmo que a escuridão tente apagar nosso testemunho.

2. Ser prudente e simples: a sabedoria cristã

Jesus continua: “Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16). Que conselho valioso! À primeira vista, pode parecer estranho associar a prudência à serpente — um animal que, na Bíblia, simboliza o mal. Mas aqui Jesus destaca uma qualidade: a capacidade da serpente de perceber o perigo e agir com cautela. Por outro lado, a pomba representa a doçura, a paz e a pureza de coração.

Ou seja, o cristão deve unir a sabedoria à bondade. Prudente para não cair em armadilhas, e simples para não se corromper com as estratégias do mundo. Esse equilíbrio é essencial: precisamos estar atentos aos sinais dos tempos, sem perder a confiança no Senhor.

3. A perseguição como oportunidade de testemunho

Cristo adverte: “Sereis entregues aos tribunais, açoitados... levados diante de reis e governadores por minha causa” (Mt 10,17-18). Parece um cenário duro — e é mesmo. Mas Jesus não apresenta essas situações como derrota. Pelo contrário: são ocasiões para dar testemunho!

A fé cristã não é vivida apenas nos momentos tranquilos da vida, mas se mostra autêntica quando perseveramos mesmo em tempos difíceis. O testemunho dos mártires, dos santos e de tantos cristãos anônimos ao longo da história é prova viva disso.

Seja no tribunal, na empresa, na escola, na internet ou dentro da própria casa — somos chamados a viver e anunciar o Evangelho com coragem, ainda que isso nos custe críticas, rejeições ou incompreensões.

4. O Espírito que fala por nós

Diante da perseguição, Jesus nos consola com uma promessa: “Não vos preocupeis com o que falar. O Espírito do vosso Pai falará por vós” (Mt 10,19-20). Aqui está um segredo espiritual importantíssimo: não estamos sozinhos! Quando testemunhamos a fé com sinceridade, é o próprio Espírito Santo quem nos inspira, nos dá palavras, serenidade e discernimento.

Essa promessa deve nos encorajar. Não é nossa eloquência, nossa força ou inteligência que tocam os corações — mas a ação do Espírito Santo em nós. Nossa missão é sermos instrumentos disponíveis. O resto é obra divina.

5. A fidelidade até o fim

Jesus encerra com um chamado firme à perseverança: “Sereis odiados por causa do meu nome, mas quem perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 10,22). A fé não é uma corrida de velocidade, mas uma maratona de fidelidade. Ao longo da vida, enfrentamos tribulações, cansaço, tentações e provações. Porém, aquele que se mantém firme no amor de Cristo será recompensado com a salvação.

6. São Bento: modelo de resistência espiritual

Neste dia em que celebramos a memória de São Bento, fundador do monaquismo ocidental, temos um exemplo vivo deste Evangelho. Diante de um mundo em crise, São Bento escolheu o caminho da oração, do trabalho, da disciplina e da fidelidade ao Evangelho. A Regra de São Bento ensina equilíbrio, caridade e constância — virtudes tão necessárias hoje.

São Bento enfrentou perseguições, tentações e desafios, mas perseverou até o fim. Por isso, tornou-se luz para muitas gerações. Que ele interceda por nós, para que também sejamos fiéis ao nosso chamado.


🙏 Conclusão

O Evangelho de hoje nos coloca frente a frente com a realidade da missão cristã: seguir Jesus exige coragem, discernimento e perseverança. Não se trata de viver uma fé confortável, mas uma fé comprometida com a verdade, ainda que nos custe algo.

Se você está enfrentando oposição ou sofrimento por viver o Evangelho, não desanime. Lembre-se: você não está só. O Senhor te envia, o Espírito te assiste, e os santos intercedem por ti.

Que a Palavra de hoje nos fortaleça para sermos ovelhas fiéis, mesmo em meio aos lobos — confiando sempre na vitória do amor de Cristo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

 

HOMILIA PARA O DIA DE FINADOS

Meus irmãos e minhas irmãs, em Cristo..

Neste Dia de Finados, somos chamados a refletir sobre a profundidade e o mistério da vida e da morte, e especialmente sobre a promessa da ressurreição e da vida eterna. As leituras de hoje – Jó 19,1.23-27a; o Salmo 23; 1 Coríntios 15,20-24a.25-28; e Lucas 12,35-40 – nos ajudam a meditar sobre a esperança que nos aguarda além desta vida e sobre a importância de estarmos preparados para o encontro com o Senhor.

Na primeira leitura do livro de Jó, vemos um homem que experimentou intensa dor e sofrimento, enfrentando a perda dos seus bens, dos seus filhos e da sua saúde. Em meio a esse sofrimento extremo, Jó expressa uma fé e uma esperança profundas que nos surpreendem: “Eu sei que meu redentor está vivo, e que no fim se levantará sobre a terra. Depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne verei a Deus” (Jó 19,25-26).

As palavras de Jó são um grito de esperança em meio à dor. Ele sabe que sua vida não se encerra no sofrimento terreno e que, além da morte, há um Redentor, alguém que o resgatará e trará sentido a tudo o que passou. A esperança de Jó transcende a lógica humana, pois ele confia em algo que ainda não vê, mas que é a única certeza que resta em sua alma.

Assim também, no Dia de Finados, somos convidados a recordar que a nossa esperança se baseia em Deus, e não em garantias humanas. Para aqueles que perderam entes queridos, essa esperança é um consolo, pois sabemos que a morte não é o fim; é um passo em direção à eternidade, ao encontro definitivo com Deus. No fundo, o que Jó nos ensina é a manter viva a chama da esperança, mesmo quando tudo ao redor parece nos levar ao desespero. Ele nos lembra que a vida é muito maior do que aquilo que conseguimos ver e entender agora.

O Salmo 23 também nos dá uma perspectiva de fé e confiança em Deus. “Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra, o mundo inteiro com os seres que o povoam!” (Sl 23,1). Esta declaração nos lembra que tudo pertence a Deus, inclusive a nossa própria vida. Ele é o Senhor da criação, e nada escapa ao Seu olhar amoroso e cuidadoso.

O salmo nos leva a pensar que, embora a morte pareça muitas vezes algo difícil e assustador, podemos confiar que nossas vidas estão nas mãos de Deus. Ele nos criou, nos conhece profundamente e nos acolhe na hora da morte. Em momentos de luto, precisamos nos lembrar dessa verdade: somos de Deus, e Ele nos acolhe com amor. Não somos apenas criaturas abandonadas no tempo, mas filhos e filhas amados de um Pai que cuida de nós desde o início até o fim da nossa existência.


Este salmo também nos leva a considerar a santidade da vida que nos foi dada e a santidade da vida de nossos entes queridos. Ao nos prepararmos para nos encontrarmos com o Senhor, precisamos viver de forma a agradá-Lo, buscando a pureza do coração e a sinceridade de espírito, como diz o salmo: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem ficará em sua santa habitação? Aquele que tem mãos puras e coração inocente” (Sl 23,3-4). Viver com o coração voltado para Deus é o caminho para a comunhão eterna com Ele.

A segunda leitura, da Primeira Carta aos Coríntios, é uma das mais belas passagens sobre a ressurreição. São Paulo nos lembra que Cristo ressuscitou dos mortos e que Ele é “as primícias dos que morreram” (1Cor 15,20). Em outras palavras, Cristo foi o primeiro a vencer a morte, e Ele nos abre o caminho para a vida eterna. Nossa fé cristã repousa na certeza de que, assim como Cristo venceu a morte, também nós ressuscitaremos com Ele.

Essa verdade é fundamental para nós, especialmente no Dia de Finados. Ao recordar nossos irmãos e irmãs falecidos, não o fazemos com um olhar de tristeza eterna, mas com a esperança que vem de Cristo ressuscitado. Ele nos mostra que a morte não é o fim, mas uma passagem para a vida plena em Deus. Com Cristo, temos a certeza de que a morte foi vencida, e que a vida eterna nos aguarda.

Paulo nos explica que Jesus é o novo Adão, aquele que, através de Sua ressurreição, nos resgata da morte e do pecado. Ele transforma nossa condição humana e nos eleva à glória de Deus. Este é o coração da nossa fé: “Pois, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão” (1Cor 15,22). Essa promessa é a nossa grande esperança e a nossa consolação: embora enfrentemos a morte, vivemos na certeza de que Cristo nos ressuscitará.

No Evangelho de Lucas, Jesus nos alerta sobre a importância de estarmos vigilantes, preparados para o momento em que Ele vier ao nosso encontro: “Estejam com os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12,35). Esta imagem das lâmpadas acesas nos lembra da espera vigilante, de estarmos prontos para receber o Senhor a qualquer momento. A nossa vida é um preparo contínuo para o encontro com Deus, e este encontro pode acontecer a qualquer instante.

 Jesus nos convida a viver uma fé ativa e uma espera constante. No Dia de Finados, isso nos leva a refletir sobre como estamos vivendo nossa vida hoje. Será que estamos vivendo com a consciência de que a vida é passageira e que devemos buscar o essencial? Ou será que estamos apegados às coisas passageiras, esquecendo do que realmente importa? A vigilância que Jesus pede é uma atitude de fé e esperança, que nos mantém firmes no propósito de viver para Deus.

Estar preparado para o encontro com o Senhor é um convite a viver com responsabilidade e amor. Quando vivemos conscientes da nossa finitude, valorizamos mais as relações, amamos mais profundamente e servimos com mais generosidade. A vigilância cristã não é medo, mas um estado de amor e de serviço, que nos faz estar prontos para nos encontrar como Aquele que nos ama e nos aguarda.

 Meus irmãos e minhas irmãs, neste Dia de Finados, somos chamados a recordar com carinho e esperança aqueles que já partiram. Rezamos por eles, confiando que estão nas mãos de Deus e que participam da vida eterna que Cristo nos prometeu. A esperança cristã nos consola, pois sabemos que a morte não é o fim, mas um novo começo.

Somos chamados a viver com a certeza de que um dia também nós estaremos na presença de Deus, onde “não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor” (Ap 21,4). Que este Dia de Finados seja, para todos nós, uma oportunidade de renovar nossa esperança na ressurreição, de fortalecer nossa fé e de nos comprometermos a viver com um coração puro e vigilante, prontos para o encontro com o Senhor.

 Que Deus acolha em Seus braços amorosos todos os nossos irmãos e irmãs falecidos e que nós, que aqui permanecemos, possamos viver cada dia na luz de Cristo ressuscitado, caminhando com fé, esperança e amor até o dia em que nos encontraremos definitivamente com o nosso Salvador. Amém.

 

 Pe. Edinaldo Nascimento

Paróquia de São Miguel Arcanjo

São Miguel - RN



 HOMILIA DA QUARTA FEIRA DA 30ª DO TEMPO COMUM

 A homilia de hoje nos convida a refletir profundamente sobre nossa caminhada de fé e como estamos respondendo ao chamado de Deus para viver de maneira autêntica e comprometida com o Seu Reino. Com as leituras de Efésios 6,1-9, o Salmo 144(145) e o Evangelho de Lucas 13,22-30, encontramos conselhos e ensinamentos práticos para nossa vida cotidiana e também um convite firme de Jesus a refletir sobre a nossa disposição em seguir Seus caminhos, mesmo que isso signifique enfrentar desafios e renúncias.

Na primeira leitura, São Paulo fala aos cristãos de Éfeso sobre a importância das relações familiares e sociais. Ele começa com um chamado claro à obediência e ao respeito: “Filhos, obedeçam a seus pais, pois isto é justo no Senhor” (Ef 6,1). Essa exortação vai muito além de um simples mandamento de obediência, pois São Paulo nos relembra que, na dinâmica familiar, a obediência é um sinal de amor e gratidão. Para os pais, ele deixa a recomendação de que tratem os filhos com carinho e respeito, sem provocá-los ou exigir deles mais do que podem suportar. Vemos aqui o valor da empatia e do cuidado mútuo, refletindo o amor de Deus que é sempre generoso e acolhedor.

Esses ensinamentos nos lembram que, em todas as relações humanas, devemos ver o outro como um filho amado de Deus, com igual dignidade e valor. Assim, o respeito, o cuidado e a justiça nas relações familiares e profissionais não são apenas deveres sociais, mas são expressões de nossa fé e de nossa vocação para amar como Jesus nos amou.

No Evangelho, Jesus nos traz uma mensagem exigente. Quando perguntado se são poucos os que se salvam, Ele não responde diretamente com um número, mas apresenta um ensinamento que é um alerta para todos nós: “Esforcem-se para entrar pela porta estreita” (Lc 13,24). A porta estreita representa um caminho de disciplina, sacrifício e busca constante pela vontade de Deus. Jesus nos adverte que muitos tentarão entrar, mas não conseguirão, pois não viveram uma fé autêntica.

O que significa essa porta estreita na prática? Muitas vezes, nossa tendência humana é buscar a facilidade, o conforto e o reconhecimento. No entanto, o Reino de Deus nos convida ao desapego, à humildade e ao serviço ao próximo. A porta estreita exige de nós uma mudança interior que nos transforma em discípulos fiéis, comprometidos com a verdade e a justiça de Deus.

Essa imagem da porta estreita nos leva a refletir sobre nossas atitudes diárias. Será que estamos realmente dispostos a renunciar ao orgulho, à vaidade e aos desejos egoístas para viver o Evangelho? Seguir Jesus pode exigir renúncias e nos chamar a escolhas difíceis, mas é por esse caminho de entrega e obediência que encontramos a verdadeira paz e a vida eterna.

Jesus nos adverte também sobre o risco de uma fé superficial, quando diz que muitos tentarão entrar, mas não serão reconhecidos. É uma advertência importante, porque nos lembra que o simples fato de “conhecer” Jesus, sem comprometimento real com Sua mensagem, não é suficiente. Jesus deseja uma relação profunda conosco, baseada na sinceridade, na conversão diária e no desejo de viver como Ele viveu. A fé que agrada a Deus não é feita apenas de rituais ou palavras, mas de um coração transformado, que busca continuamente o bem e a vontade de Deus.

É comum ouvirmos falar de “relacionamento pessoal com Deus”, mas o que significa isso? Significa cultivar um diálogo sincero e constante com o Senhor, através da oração, dos sacramentos e da prática das virtudes. Esse relacionamento também se manifesta na maneira como tratamos o próximo, especialmente os mais necessitados e marginalizados. A autenticidade da nossa fé se revela nas atitudes diárias, nas escolhas éticas e na capacidade de perdoar, de ser solidário e de viver a compaixão.

O Salmo 144(145) nos ajuda a compreender a grandeza da bondade e da misericórdia de Deus: “O Senhor é fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras” (Sl 144,13). Essa fidelidade de Deus é um convite à confiança. O Senhor nos conhece, sabe das nossas fraquezas, mas também conhece nosso desejo de segui-Lo e de sermos melhores a cada dia. Ele não é um Deus distante, que espera nossa perfeição para nos acolher; pelo contrário, Ele é próximo, está com aqueles que O invocam e busca fortalecer os que caem.

Muitas vezes, podemos nos sentir indignos ou incapazes de entrar pela porta estreita. Contudo, o salmista nos lembra que o Senhor é misericordioso e nos apoia em nossos momentos de fraqueza. Ele nos levanta, nos encoraja e nos chama a confiar mais em Sua graça. Nossa caminhada cristã, embora exigente, é também cheia de esperança, porque não estamos sozinhos; Deus nos acompanha e nos ajuda a cada passo.

Por fim, ao abraçar o desafio da porta estreita, descobrimos que ela não é um peso ou uma restrição, mas um caminho de verdadeira liberdade. A vida que Jesus nos propõe pode parecer difícil, pois implica renúncias e escolhas contra a corrente, mas é essa vida que nos liberta do vazio, do egoísmo e do pecado. A porta estreita é o caminho do amor e do serviço, e somente por ele encontramos a plenitude que buscamos.

Na sociedade de hoje, somos constantemente incentivados a buscar sucesso, reconhecimento e poder. Mas Jesus nos mostra que o verdadeiro sucesso está em servir, em amar e em nos doarmos ao próximo. A verdadeira realização humana está em viver uma vida com sentido, dedicada a algo maior do que nós mesmos. Quando escolhemos a porta estreita, escolhemos viver para Deus e para os outros, e essa é a verdadeira liberdade que o Evangelho nos oferece.

Que as palavras de Jesus e o exemplo de São Paulo nos inspirem a fazer um exame sincero de nossa vida de fé. Estamos buscando a porta estreita com coragem e humildade? Estamos prontos a renunciar a tudo o que nos afasta de Deus e dos Seus mandamentos? Que possamos nos comprometer, dia após dia, com essa caminhada de santidade, sabendo que a graça de Deus nos acompanha e nos fortalece em cada passo.

Peçamos ao Senhor que nos dê um coração sincero, disposto a amar, a perdoar e a servir. Que Ele nos guie pela porta estreita e nos conduza ao Seu Reino, onde encontraremos a verdadeira alegria e a paz eterna. Amém.

 


segunda-feira, 11 de setembro de 2023

 


Nova Humanidade em Cristo: entendendo a carta aos Efésios


 Introdução

A carta aos Efésios, juntamente com Filipenses, Colossenses e Filêmon, é conhecida como “carta do cativeiro”, por dar a entender que Paulo se encontrava preso (Ef 3,1; 4,1; 6,19-20). Acredita-se que Paulo foi prisioneiro em Roma, entre os anos 61 e 63 d.C., e pode ser que nessa ocasião tenha escrito a carta a seus seguidores e seguidoras da cidade de Éfeso, capital da província romana da Ásia Menor, para instruí-los no projeto (mistério) salvador de Deus e na vida comunitária em Jesus Cristo.

No entanto, uma simples comparação da carta aos Efésios com as cartas protopaulinas (Rm, 1 e 2Cor, Gl, Fl, 1Ts e Fm) possibilita perceber que há grandes diferenças quanto ao estilo, vocabulário, teologia e orientação pastoral, levantando dúvidas sobre a autoria de Paulo.

1. Autor, destinatário e data

Os estudiosos apontam as seguintes características da carta em estudo:

a) Vocabulário: Ef contém 86 termos que não se encontram nas cartas paulinas. Desses, 34 estão ausentes em todos os outros textos do Novo Testamento.
b) Colossenses: a carta dirigida à comunidade de Colossas (cidade da Ásia Menor), escrita por um colaborador de Paulo, é a mais parecida com Ef, tanto na forma quanto no conteúdo.
c) Judeus e não judeus: Ef não trata do grave conflito entre judeus e não judeus, descrito nas cartas paulinas – por exemplo, em Filipenses (cf. Fl 3,2) –, o que indica uma realidade do fim do século I d.C.
d) Escatologia: Ef não espera a vinda iminente de Cristo, como Paulo acreditava. Essa expectativa tinha enfraquecido, e as comunidades precisavam se organizar e se adaptar para sobreviverem dentro do império (cf. 1 e 2Pd).
e) Cartas católicas: Ef tem relações significativas com as cartas católicas (Tg; 1 e 2Pd; 1, 2 e 3Jo; Jd), escritas entre os anos 90 e 110 d.C., bem posteriores ao apóstolo Paulo.
f) A menção a Éfeso como destinatário falta em muitos manuscritos importantes de Ef, o que faz pensar em uma carta-circular aos cristãos da Ásia Menor, por volta do ano 90 d.C.

Esses dados são suficientes para afirmar que Paulo não escreveu a carta aos Efésios. Essa carta-circular possivelmente foi enviada a várias comunidades no fim do primeiro século, no contexto de exploração e dominação do Império Romano.

2. Conhecendo a realidade

O livro do Apocalipse de João, escrito no fim do século I d.C. na Ásia Menor, descreve a exploração econômica da região pelos “mercadores da terra” (o Império Romano). Estes estavam explorando e levando a riqueza da terra para a capital do império: “Carregamento de ouro e prata, de pedras preciosas […], vinho e azeite, flor de farinha e trigo, bois e ovelhas, cavalos e carros, escravos e vidas humanas” (Ap 18,12-13). O último trecho – “cavalos e carros, escravos e vidas humanas” – aponta e simboliza o regime econômico e político do Império Romano: uma sociedade escravagista, controlada por um exército poderoso e violento (Ap 6,1-8). A dominação começa com a terra: a maioria das terras da Ásia Menor pertencia ao império, o que gerava a cobrança sistemática de impostos e o monopólio do comércio (Ap 13,11-18).

A maioria da população local estava submetida à escravidão, decorrente da exigência de impostos, do comércio abusivo e das várias formas de violência. O duro trabalho nas fazendas (“ovelhas”), nas minas (“prata”, “pedras preciosas”) e nas fábricas (carroças e carros puxados por cavalos) enfraquecia e empobrecia o povo. O sofrimento aumentava ainda mais com a dominação cotidiana do império no ambiente social e cultural da Ásia Menor, subjugação que se manifestava com as seguintes características:

a) O patronato. O sistema de patronato, ou clientelismo, funcionava como uma pirâmide e era marcado pela “troca” de favores entre as pessoas, criando verdadeira teia de influência e poder. Quando o patrono rico favorecia o cliente que tinha menor poder ou riqueza, essa prática gerava dependência e submissão, porque a pessoa mais pobre se sentia grata e devedora de favores ao poderoso. O patronato permeava todas as relações dos membros da “família”: marido e esposa, pai e filho, patrão e escravo etc. (Ef 5,21-6,9). O imperador, denominado pater patriae, era a figura máxima da sociedade patronal. Ele controlava e submetia toda a população conquistada pelo Império Romano.

b) A helenização, baseada no dualismo da cultura helenista (Deus e o mundo). O império alimentava o espírito da helenização ou romanização, marcado pela busca desenfreada de bens, prazer e honra. Tal busca provocava a libertinagem ética e social, que se traduzia em ignorância, insensibilidade, paixão enganadora, mentira, injustiça, difamação, roubo, conflito, violência (Ef 4,17-5,30).

c) A religião imperial. O poder do império era legitimado pela religião oficial. O culto aos imperadores, por exemplo, era celebrado nos templos das cidades da Ásia Menor (Ancira, Pessinunte, Antioquia da Pisídia etc.), fortalecendo o domínio do império mediante o poder e o carisma do imperador, considerado divino. No culto, o evangelho, a “boa-nova” de César Augusto, o senhor do império e da terra, era proclamado, exaltando o império e o imperador por estabelecerem na terra a paz e a salvação: a pax romana. O evangelho imperial era oposto ao de Cristo Jesus, por meio do qual Deus Pai revela seu mistério (projeto) de salvação (Ef 1,1-23; 3,1-13).

d) O mundo cultural e religioso. Os membros da Igreja, predominantemente gentios, eram convertidos de um ambiente cultural e religioso helenístico (greco-romano), marcado pelas religiões de mistério, magia, astrologia. Eles acreditavam que os maus espíritos, o diabo, o maligno e os poderes cósmicos habitavam nos céus e manobravam o mundo, os seres humanos e a história, provocando injustiça, violência e morte (Ef 2,1-3; 6,10-20).

O sofrimento do povo conquistado foi acentuado nos anos do reinado de Domiciano (81-96 d.C.), um imperador arrogante, que exigiu ser chamado de “Senhor e Deus”. Seus últimos anos foram marcados pelo terror (com muitas sentenças de morte, também contra membros da própria família, e feroz perseguição aos cristãos) e por problemas econômicos, geradores de grande turbulência, exploração e violência contra a população da Ásia Menor.

Era nesse mundo hostil que as comunidades cristãs jovens, recém-separadas do judaísmo (judeu-cristãos expulsos da sinagoga: cf. Jo 9), deviam firmar-se, unir-se e manter sua caminhada, pregando Cristo Jesus crucificado e praticando o amor ao próximo (Ef 3,14-22).

Sobretudo os gentios convertidos deviam apropriar-se das virtudes de Cristo, livrando-se de uma vida não cristã, dos vícios e dos maus espíritos. Ademais, por volta do ano 90 d.C., os cristãos já não esperavam uma parúsia iminente (Ef 2,5.8), mas se empenhavam em construir “moradas” neste mundo (Jo 14,23). A preocupação com a solidificação da Igreja e com a estabilidade da família cristã estava em primeiro lugar diante dos problemas do mundo.

3. Conhecendo os problemas

A carta aos Efésios não faz referência direta a problemas ou a situações concretas de uma comunidade específica. Entretanto, nas entrelinhas do texto, surgem os problemas que um pequeno grupo de comunidades, formadas ao redor da figura de Jesus Cristo na Ásia Menor, enfrentava para manter sua sobrevivência, entre os quais a questão da terra explorada e dominada pelo Império Romano. Ao procurarem viver o amor ao próximo, as comunidades, a exemplo de Jesus Cristo, chocavam-se com os valores do imponente mundo helenizado e hierarquizado em que estavam inseridas.

a) Como os cristãos podiam acreditar em um Messias crucificado e pregá-lo (Ef 2,16)? Como acreditar que o mais esmagado e desprezado entre os seres humanos era o Filho de Deus, que veio para dar sentido à vida e a um mundo sob o domínio do Império Romano com seu imperador, considerado Senhor e Deus poderoso? Como os cristãos podiam usar o título “Senhor” para Cristo Jesus, título reservado ao imperador? Qual a posição de Cristo Senhor em relação ao “Deus imperador” e aos poderes cósmicos?

b) Como a Igreja, oriunda da tradição judaica do povo de Deus (de monoteísmo exclusivo), podia dar, com o Evangelho de Jesus Cristo, o “projeto salvador da graça de Deus” – o “mistério” (Ef 3,2-4) – a todas as nações alcançadas pelo projeto salvador da pax romana mediante o evangelho do imperador?
c) Havia o grupo helenizado, com seu conhecimento – a gnosis nas comunidades (Ef 3,19; cf. Cl 2,1-8; 1Jo 2,18-3,24) –, que se interessava apenas por si mesmo, alegando ter uma liberdade superior, e exprimia uma espiritualidade vertical, muitas vezes desvinculada do compromisso social e comunitário.

d) A maioria dos membros era de não judeus convertidos, mas havia também membros judeus (e antigos tementes a Deus) em seu meio, e o problema da relação entre eles ainda não havia sido resolvido (Ef 2,14). O fluxo dos novos convertidos não judeus nas comunidades criou algumas tensões significativas. Nesse contexto, como resolver a inimizade cultural e econômica para manter a unidade da Igreja?

e) Em uma sociedade escravagista, a posição, a carga e a função social das pessoas eram controladas pelo sistema patronal e patriarcal, que tinha o imperador como patrono e Pai e instaurava relações de submissão e desprezo. Como a carta aos Efésios advertiu os membros para o perigo de desprezo e de conflito na Igreja por causa das diferentes funções de cada membro (Ef 4,16)?

f) No mundo greco-romano, marcado pela helenização, os cristãos, sobretudo os gentios convertidos, encontram-se em perigo de retrocesso na vida moral e desvio da fé. Como conscientizar a comunidade sobre os perigos, como a imoralidade da libertinagem (Ef 4,19)?

g) Como as pessoas batizadas em nome de Jesus Cristo, sob a ética da igualdade (Gl 3,28), assumem o “código doméstico” (a lei da submissão) na família, a célula fundamental da sociedade patriarcal e escravagista daquele tempo (Ef 5,21-6,9)?

h) As injustiças e opressões eram praticadas pelos poderosos do mundo (Ef 6,12) na realidade vigente da sociedade escravagista, na qual era quase impossível promover mudanças. Como a carta aos Efésios orienta os membros para lutar contra o mal, personificado pelo diabo (maligno), que seduz e se encarna nos poderosos do mundo?

4. Conhecendo a carta aos Efésios

A carta pode ser dividida em duas partes. A primeira é uma parte doutrinal sobre o projeto salvador (o mistério) de Deus, realizado em seu Filho, Jesus (Ef 1,3-14), e desenvolvido na Igreja, a qual tem, como cabeça, Jesus Cristo soberano e crucificado (Ef 1,15-2,22), anunciado por Paulo (Ef 3,1-21). A segunda é marcada pela exortação a dinamizar a vida cristã: viver na unidade (Ef 4,1-16), viver como filhos da luz (Ef 4,17-5,20), ser família cristã (Ef 5,21-6,9), lutar contra o mal (Ef 6,10-20). Eis um possível esquema para a carta:

a) Introdução – 1,1-2: saudação inicial;
b) Primeira parte – 1,3-3,21: o mistério de Cristo soberano, cósmico e eclesial;
c) Segunda parte – 4,1-6,20: a vida cristã na prática;
d) Conclusão – 6,21-23: saudação final.

5. Conhecendo as mensagens principais

A carta aos Efésios apresenta uma reflexão sobre a Igreja como corpo de Jesus Cristo. Ela exorta os leitores a uma conduta digna da vocação cristã no mundo helenista, patriarcal e escravagista do Império Romano.

a) O senhorio e a presença gloriosa de Cristo (Ef 1,3-23): descreve e prega a soberania de Jesus Cristo como o único Senhor sobre “as coisas celestes e as terrestres”, para fortalecer a identidade, a sobrevivência e a resistência dos cristãos ante a dominação dos poderosos do mundo, justificada pela imagem poderosa do imperador, “Senhor e Deus”.

b) A Igreja universal (Ef 2,1-22): Cristo crucificado, como a maior manifestação do amor infinito do Pai, derruba as barreiras (como a Lei e a tradição oficial) que isolavam Israel das outras
nações. Doravante, gentios e judeus convertidos ao cristianismo formam, com unidade e igualdade de direitos, um só corpo, “homem novo” ou “nova humanidade”.

c) O mistério de Deus com o amor de Cristo (Ef 3,1-21): a grande obra salvífica (mistério) de Deus, realizada em Jesus de Nazaré crucificado e anunciada pelo Evangelho de Cristo Jesus soberano, está revelada e desenvolvida na Igreja, o corpo de Cristo, na qual os gentios também fazem parte do povo de Deus. Na Igreja, a fé no amor de Cristo, fortalecida pelo Espírito Santo, deve ativar o “coração” dos fiéis para superar “todo conhecimento” (desvinculado da responsabilidade social e comunitária) e construir a casa de Deus Pai no seio do mundo injusto e opressor.

d) Unidade na diversidade (Ef 4,1-16): pelo batismo, os membros cristãos, “ressuscitados” com Jesus Cristo, são libertos do “pecado” (o poder das trevas) e unidos ao Filho de Deus, participando do mistério (o projeto da salvação) de Cristo e formando a nova humanidade, o “homem perfeito”, na Igreja. Nela, cada membro, com seu carisma e função, forma “um só corpo e um só Espírito” no amor verdadeiro de Cristo, em oposição à sociedade patronal e escravagista de desigualdade e discriminação.
e) Nova humanidade em Cristo (Ef 4,17-5,20): a pessoa renovada em Cristo deve revestir-se do “homem novo”, como filha da luz, e caminhar no amor, bondade, justiça e verdade, abandonando a “libertinagem e a prática insaciável de todo tipo de impureza”.

f) Amor e respeito (Ef 5,21-6,9): segundo o modelo da união de Cristo e da Igreja, Efésios propõe que os cristãos pratiquem o código doméstico (as instruções sobre as relações entre mulher e
marido, entre filhos e pais e entre escravos e patrões), com a “reciprocidade” e o “amor ao próximo”, nas “casas-empresa” de residência e produção, a célula fundamental da sociedade daquele tempo. A orientação visa desacreditar e subverter, pacífica e gradativamente, as relações de dominação e submissão dentro da sociedade patriarcal e escravagista sustentada pelo poderoso Império Romano, o mundo em que não se podia imaginar nem cogitar mudanças no sistema de relações socioeconômicas estabelecidas.

g) Luta contra os espíritos do mal (Ef 6,10-20): na realidade vigente da sociedade opressora do império, com seu exército violento e sua religião ostensiva, os cristãos, portando a “armadura de Deus”, devem lutar contra os espíritos do mal chefiados pelo diabo (maligno), os quais seduzem e dominam o mundo, o ser humano e a história com seu espírito de alienação, ignorância e libertinagem. As armas para o combate e a resistência à sociedade geradora de injustiça, opressão e morte são a verdade, a justiça, o Evangelho da paz, a fé, o Espírito, a Palavra e a oração.

Conclusão

Fazendo uma leitura contextualizada da carta aos Efésios, percebe-se que as comunidades cristãs de ontem e de hoje devem lutar contra o mundo da injustiça e executar o projeto salvador (mistério) de Deus, revelado no Evangelho do amor de Jesus Cristo crucificado: Deus Pai criador reúne todas as pessoas na unidade e na paz, excluindo quaisquer separações de classe social, etnia, gênero e
origem religiosa.

Quase dois mil anos se passaram, mas os espíritos do mal (ambições de bens e de poder) continuam seduzindo, encarnando-se nos poderosos de hoje e devorando as pessoas inocentes mediante as guerras, o trabalho escravo, a economia selvagem, a fome, a violência etc. Como os cristãos podem lutar contra o mundo do maligno, não só em sentido espiritual, mas também em sentido real e concreto? As injustiças e desigualdades crescem a cada momento, dentro e fora das comunidades cristãs. Temos o desafio de reavivar a justiça, a solidariedade e a irmandade em nossa vida e missão.

Referências bibliográficas

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FOULKES, Irene. Os códigos de deveres domésticos em Colossenses 3,18-4,1 e Efésios 5,22-6,9: estratégias
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WINN, Adam (ed.). An introduction to Empire in the New Testament. Atlanta: SBL Press, 2016.

Maria Antônia Marques e Shigeyuki Nakanose

*Maria Antônia Marques é assessora do Centro Bíblico Verbo e professora no Instituto São Paulo de Estudos
Superiores (Itesp). E-mail: ma.antoniacbv@yahoo.com.br

**Shigeyuki Nakanose, svd, é assessor do Centro Bíblico Verbo e professor no Instituto São Paulo de
Estudos Superiores (Itesp).
E-mail: contato@cbiblicoverbo.com.br
Disponível: 

https://www.vidapastoral.com.br/ano/nova-humanidade-em-cristo-entendendo-a-carta-aos-efesios/

 



LEVANTE-TE E VEM PARA O MEIO ( Evangelho (Lc 6,6-11))

Num outro sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Lá estava um homem que tinha a mão direita seca. Os escribas e os fariseus observavam Jesus, para ver se ele faria uma cura no dia de sábado, a fim de terem motivo para acusá-lo. Ele, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse ao homem da mão seca: Levanta-te e fica aqui no meio!. Ele se levantou e ficou de pé. Jesus disse-lhes: Eu vos pergunto: em dia de sábado, o que é permitido, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixar morrer?. Passando o olhar sobre todos eles, Jesus disse ao homem: Estende a mão!. O homem assim o fez e a mão ficou curada. Eles se encheram de raiva e começaram a discutir entre si sobre o que fariam contra Jesus.

Nos dias de hoje, a liberdade é um tema de discussão constante e prática prevalente em nossa sociedade. No entanto, a maneira como entendemos e vivemos a liberdade muitas vezes difere fundamentalmente da liberdade exemplificada por Jesus Cristo. A liberdade que Jesus encarnou está intrinsecamente ligada à vontade do Pai Celestial, uma liberdade que se submete à ação e ao propósito divino.

Ele enfatizou repetidamente que sua ação estava alinhada com o que via o Pai fazer, declarando: "Vos garanto que o Filho do homem não pode fazer nada por si só e sim somente o que vê o Pai fazer; o que faz o Pai, faz o Filho" (Jo 5,19). Isso nos revela que a verdadeira liberdade está na obediência amorosa e na harmonia com a vontade divina.

O coração desse entendimento está no amor. O amor verdadeiro não se impõe, mas inspira e motiva à ação. Quando Jesus disse: "Levanta-te e fica aqui no meio" (Lc 6,8), suas palavras não eram meramente comandos, mas expressões de amor que restauravam não apenas a saúde física, mas também a dignidade e a vitalidade espiritual daqueles que ele tocava. E quando ordenou: "Estende tua mão" (Lc 6,10), realizou milagres que não apenas curaram, mas também ressuscitaram a força e a vida daqueles que estavam enfraquecidos e espiritualmente mortos.

A noção de "salvar" estava intrinsecamente ligada à de "curar", revelando o amor incondicional de Deus Pai por suas criaturas. Jesus, ao curar, estava, na verdade, salvando aqueles que estavam espiritualmente mortos, e isso era um claro sinal do amor de Deus em ação.

Na nova criação, onde o Filho age de acordo com a vontade do Pai, a lei predominante é a do amor em ação. Não é uma lei que permite a inatividade, mas uma lei que exige que estejamos ativamente engajados em fazer o bem aos nossos irmãos necessitados. Portanto, a chave para o nosso tempo é a união entre liberdade e amor, conforme exemplificado por Jesus.

A famosa citação de Santo Agostinho: "Ama e faz o que queiras" ressoa profundamente nos dias de hoje. Ela nos convida a nos configurarmos completamente com Cristo, o Salvador, cuja vida foi um testemunho da harmonia entre liberdade e amor. Em última análise, a liberdade genuína está em escolher o amor como nosso guia, agindo em conformidade com a vontade divina e seguindo o exemplo de Cristo.

Nossa missão, como seguidores de Jesus, é viver essa liberdade que nos capacita a amar incondicionalmente e a agir em prol do bem dos outros. Em um mundo frequentemente voltado para a busca da liberdade egoísta, podemos oferecer a verdadeira liberdade que liberta e o amor que transforma. Isso é fundamental para vivermos plenamente como discípulos de Jesus e como instrumentos do amor redentor de Deus.





domingo, 10 de setembro de 2023

 



HOMILIA DO 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

A liturgia deste abençoado domingo 23º do tempo comum, nos convida a uma reflexão profunda sobre nossa sagrada responsabilidade perante os irmãos que caminham ao nosso lado. Ela nos lembra, de maneira inequívoca, que nenhum de nós pode permanecer indiferente diante das ameaças que se erguem contra a vida e a felicidade de nossos irmãos, pois todos somos, inquestionavelmente, interligados em nossa responsabilidade uns para com os outros.

Na primeira leitura, encontramos a imagem do profeta como uma "sentinela" designada por Deus para vigiar sobre a cidade dos homens. Como um vigilante atento aos desígnios divinos e à realidade do mundo, o profeta discernia com clareza o que perturbava os planos de Deus e prejudicava a felicidade dos seres humanos. Como sentinela responsável, ele cumpria seu dever de alertar a comunidade sobre os perigos que pairavam sobre ela.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo nos convoca, a todos os cristãos de Roma e de todos os cantos do mundo, a centralizar nossas vidas na prática do mandamento do amor. É uma "dívida" que temos com todos os nossos irmãos, uma dívida que, sob a luz divina, nunca poderá ser completamente quitada.

O Evangelho deste domingo se desdobra em três ensinamentos de Jesus que regulam aspectos cruciais para o futuro da Igreja: a correção fraternal entre os fiéis, o poder de ligar e desligar concedido aos apóstolos e a seus sucessores, e a eficácia da oração coletiva.

A mensagem de Jesus não nos transforma em seres imaculados, mas nos exorta a amar uns aos outros, independentemente de nossas imperfeições e falhas. Uma prova concreta desse amor é a assistência mútua por meio do perdão e da correção. Com esse primeiro ensinamento, Jesus nos convida a adotar o papel de juízes compassivos, que abordam com compreensão aqueles que erraram em seus caminhos.

Portanto, "a prática da correção fraternal, com base na tradição evangélica, é uma demonstração de afeto sobrenatural e confiança. Devemos agradecer quando a recebemos e não devemos hesitar em praticá-la com aqueles que compartilham nossa convivência." A correção fraternal, conforme ensinado pelo Papa Francisco, evita a "amargura no coração que abriga raiva e ressentimento, levando-nos a insultar e a ferir. É profundamente inapropriado ver um cristão proferindo insultos ou lançando ataques. Insultar não é compatível com a essência do cristianismo."

Muitos Padres da Igreja discorreram sobre a correção fraternal, considerando-a um ato nobre e um gesto de amizade genuína. Eles extrairam implicações práticas das palavras de Jesus. Por exemplo, Santo Agostinho instruiu seus fiéis: "Devemos, portanto, corrigir com amor, não com a intenção de causar dano, mas com a carinhosa intenção de buscar a melhora. Agindo assim, estaremos cumprindo bem o mandamento."
Em relação ao segundo ensinamento de Jesus (versículo 18), o Catecismo da Igreja Católica explica que as palavras "ligar" e "desligar" significam que aqueles que excluímos da comunhão também são excluídos da comunhão com Deus, e aqueles que reintegramos em nossa comunhão, Deus também os acolhe em Sua comunhão.

A reconciliação com a Igreja está inextricavelmente ligada à reconciliação com Deus. Após abordar a reconciliação entre irmãos, Jesus confere aos apóstolos o poder de reconciliar os fiéis com a Igreja. Esse poder é normalmente exercido por meio do sacramento da confissão, administrado pelo confessor, que recebeu tal autoridade do bispo, o sucessor dos apóstolos.

Por fim, Jesus menciona que "outro fruto do amor na comunidade é a oração coletiva", como afirmou Bento XVI. Certamente, a oração pessoal é crucial, senão indispensável. No entanto, o Senhor promete Sua presença à comunidade que, mesmo que pequena em número, permanece unida e harmoniosa, pois essa comunidade reflete a própria essência do Deus Uno e Trino, uma comunhão perfeita de amor. Quando oramos juntos, não apenas imploramos a Deus por Suas graças, mas também recebemos Sua presença entre nós, o presente mais valioso que podemos e devemos buscar.

Conforme ensina o Magistério da Igreja, "Cristo está sempre presente em Sua Igreja, especialmente nas celebrações litúrgicas. Ele está presente na Eucaristia, quer na pessoa do ministro - 'O que é oferecido pelo sacerdote é o mesmo que foi oferecido na Cruz' - quer nas espécies consagradas. Ele também está presente nos sacramentos, de modo que quando alguém é batizado, é o próprio Cristo que batiza. Ele está presente em Sua palavra, pois é Ele quem fala quando a Sagrada Escritura é lida na Igreja. E, finalmente, Ele está presente quando a Igreja reza e canta juntamente, pois Ele prometeu: 'Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, ali Eu estarei no meio deles'."

Neste domingo, somos lembrados de nossa responsabilidade de amar e cuidar uns dos outros, de corrigir com amor, de perdoar e de permanecer unidos em oração, pois é assim que manifestamos a presença de Cristo em nossa comunidade e cumprimos nosso papel como discípulos do Senhor. Que estas sagradas lições inspirem nossos corações e guiem nossas ações,






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